If I'm going to be anything more than average, if anyone's going to remember me, then I need to go further in everything. In art, in life, in everything they think is real: morality, immorality, good, bad, I – we – have to smash that to pieces, we have to go beyond that, we have to be brave. No limit. [Salvador Dalí]
Vou quebrar a tradição que estava surgindo aqui no Pijamas, e vou falar de cinema. De arte, de poesia, de história... Mentira. Vou escrever 8472538 linhas pra dizer uma simples frase: assistam ao filme.
Little Ashes é uma aula que nenhum professor de História da Arte foi capaz de me dar durante os anos que perdurei na Arquitetura. Porque até hoje, tudo que conseguiram me ensinar sobre este artista plástico catalão chamado Salvador Dalí é que ele tinha um bigode bizarro, foi um dos principais representantes do surrealismo, e que ele pintou A Persistência da Memória, um quadro que me assombra desde criança.
O que os meus professores deveriam ter me contado era que no final da adolescência, Salvador Dalí era um paradoxo. Numa mistura de timidez e rompantes de egocentrismo, com um visual excêntrico, aos dezoito anos ele foi para Madri estudar na Academia Real de Belas Artes de San Fernando, onde conheceu Frederico Garcia Lorca e Luis Buñuel. E aqui meus professores perderam uma grande oportunidade de pôr em prática uma palavra que virou moda nos últimos anos: interdisciplinaridade.
São os poemas de Frederico Garcia Lorca que regem o curso do filme. Ao recitá-los, Lorca narra o quadro histórico da Espanha de 1920/1930. Os anos que antecederam a Guerra Civil Espanhola, a repressão política, artística, social e sexual. Nesse contexto, a relação complexa entre os dois artistas se desenvolve, influenciando o trabalho um do outro, com conseqüências claras nas suas obras futuras.
Até hoje não se sabe se os dois tiveram uma relação homossexual. Em uma entrevista, Dalí disse “He [Lorca] was homosexual, as everyone knows, and madly in love with me … He tried to screw me twice … I was extremely annoyed, because I wasn’t homosexual, and I wasn’t interested in giving in. Besides, it hurts. So nothing came of it.” , uma afirmação que não acaba negando nada (!), mas que abre espaço pra especulação. Essa hipótese é, sim, explorada no filme, e varia entre extremos: do respeito pela arte um do outro, pelo carinho, pelo companheirismo... pontilhado de cenas no mínimo perturbadoras.
Ao contrário do que muita gente espera (e eu me incluo nesse grupo), Robert Pattinson dá conta do recado – apesar do seu sotaque inegavelmente britânico. Do Dalí pós-adolescente ao artista megalomaníaco com o bigode caricato, ele consegue convencer e mostrar porque Salvador Dalí marcou uma era.
Mas, na minha opinião, quem merece todos os holofotes do filme é o próprio Frederico García Lorca. Javier Beltrán deu vida ao poeta e dramaturgo com tanta delicadeza, que fica claro que apesar do brilho e do calor de Salvador Dalí, o grande astro da história é ele.
Se vocês tiveram paciência pra chegar até aqui, só digo mais uma coisa: assistam! (Redudante, porque eu já tinha falado isso). Não sei se isso é calor do momento, mas Little Ashes entrou pra lista dos filmes mais bonitos que eu já vi. Seja o cenário, o figurino, a fotografia, a edição, a trilha sonora... tudo vai muito além do que os críticos previam.
Então, aqui vai a minha salva de palmas para Paul Morrison (o diretor) e Robert Pattinson no seu final teatral – e triunfal. “J’arrive!”
Fica aqui o link pra download.
Enjoy it.

